RSS Feed

Um baú feito de ultrajes

Matéria originalmente publicada no Jornal do Brasil, em maio de 2010

Em um iate onde tremula uma irônica bandeira americana, o lendário cineasta independente Duke Mitchell, morto de câncer em 1981, aparece de jaqueta aberta e sem camisa, discursando debochadamente para quem quiser ouvir: “Povo dos Estados Unidos! Juízes! Policiais! A lei inteira! Tenho algo para vocês…” Ele agarra a parte inferior dos seus testículos e segue: “Tomem isso e enfiem na b***** da sua mãe!” A cena de Gone with the pope, último e inacabado longa de Mitchell, demorou mais de três décadas para ganhar as telas. Filmado com baixíssimo orçamento no final dos anos 70 e dado como perdido desde a morte do seu diretor e protagonista, teve seus negativos encontrados por milagre na garagem do cineasta. A partir daí, foi preciso o trabalho minucioso e apaixonado do casal de editores Bob Murawski e Chris Innis para restaurar e finalizar a obra, que finalmente estreou – com atrasado sucesso – no último dia 12 de março (de 2010) em uma sala do Hollywood Egyptian’s Theatre, de Los Angeles.

Premiados na última cerimônia do Oscar pela montagem de Guerra ao terror, Chris e Murawski são sócios de Sage Stallone (sim, o filho de homem!) na Grindhouse, firma que recupera filmes underground, trash e de exploitation dos anos 70 e 80.

Eles afirmam que finalizar Gone with the pope foi uma das experiências mais gratificantes que já empreenderam.

“Para nós o filme significa muito, e não apenas por ter sido encontrado por acaso no fundo de uma garagem, mas também pelo árduo trabalho que tivemos para restaurá-lo”, explica Chris ao Jornal do Brasil, durante uma pausa nas comemorações da vitória de seu primeiro Oscar. “Partindo do princípio de que é um filme improvisado, pessoal e independente, é muito mais recompensador torná-lo visível ao resto do mundo”.

Definido por Chris como “um hino de amor aos cineastas que influenciaram Micthell”, Gone with the pope de veria ser a continuação de Mas sacre mafia style, realizado pelo diretor em 1978, e que traz 80 minutos de violência non-stop – incluindo o assassinato de um cadeirante por choque elétrico num mictório. No longa (recentemente restaurado e lançado em DVD pela Grindhouse), Mitchell encarna pela primeira vez seu personagem Mimi, um ítaloamericano ultracaricato que quer se vingar da máfia americana pelo assassinato do pai traficante, 16 anos antes. Ele entra em um prédio e passa o filme inteiro matando todos que cruzam o seu caminho. Em Gone with the pope, reassume o personagem, agora com um novo objetivo: sequestrar o papa e cobrar de cada católico no mundo um dólar pelo resgate.

“O estereótipo do carcamano, machão e desbocado, que Mitchell criou com seu personagem pode ser ofensivo para alguns”, avalia Chris. “Mas ninguém pode ignorar a autenticidade e a sinceridade desse filme, que é uma janela para o imaginário e a mentalidade de uma subcultura da máfia da época. Mitchell frequentava os mesmos círculos que Frank Sinatra e tinha certas relações com figuras do crime ítalo-americanas”.

Algumas devem ter servido de inspiração para seus filmes, e outras até participaram do elenco! Assim como outros filmes relançados pela Grindhouse (ver ao lado), Gone with the pope representa com muita pegada e espirituosidade o movimento de contracultura e contestação do seu tempo (sexo e rock‘ n’roll estão presentes). Protótipo do transgressor, Mitchell, que ficou conhecido nos anos 50 por suas imitações de Dean Martin, também foi pioneiro em uma abordagem mais pessoal do cinema independente de exploitation, muito antes que isso se tornasse popular nos anos 80.

“Seu estilo inovador de filmar o coloca claramente entre os mais importante diretores de exploitation da década de 70”, sustenta Chris. “A câmera era suja e formidável no uso da “geografia criativa”, que consistia em recriar cenários europeus longínquos em locações próximas. Para alguém obrigado a filmar com recursos próprios, o longa é um exemplo de profissionalismo e invenção”.

O limbo imposto a Gone with the pope trouxe ao longa uma aura e um mistério que mexeram com o imaginário dos fãs de filmes cult. A expectativa em torno da estreia era enorme.

Chris e Bob Murawski, por sinal, haviam prometido sacudir a caretice da cerimônia do Oscar e erguer, em pleno Kodak Theater, uma faixa com o título do filme (o que, infelizmente, não se confirmou).

Depois de uma primeira exibição lotada em Los Angeles, os montadores esperam que a película continue encontrando seu público.

“O filme é um documento vivo de seu tempo, preserva o estilo de vida e cultura de Palm Springs (balneário no interior da Califórnia) dos anos 70”, enaltece Chris. “Então, para aqueles que estão cansados desses formulaicos e polidos produtos industriais de entretenimento que nunca correm riscos, obras estranhas e corajosas como Gone with the pope são um achado raro”.

**********************************************************************************************************

O QUE FAZ A GRINDHOUSE

Quem assistiu ao projeto Grindhouse, de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, que inclui os longas Planeta terror e À prova de morte (além de uma série de falsos trailers realizados pelos cineastas), conhece mais ou menos o imaginário evocado pelo termo – com o qual se batizavam salas de cinema especializadas em filmes B nos anos 70 e 80. Na programação, produções de gênero bem definidos (policial, terror, ficção científica), realizados com baixíssimo orçamento, quase sempre sanguinolentos ou ultrajantes.

Apesar desse tipo de produção ter se enfraquecido há pelo menos 20 anos, muitas relíquias encontraram nas figuras do ator e diretor Sage Stallone e o editor e produtor Bob Murawski (responsável pela montagem de toda a franquia Ho mem-Aranha, dirigida por Sam Raimi, entre outros blockbusters), uma espécie de salvadores. Criada pela dupla em 1996, a companhia Grindhouse recupera e distribui algumas das pérolas produzidas no período.

“O objetivo é encontrar, restaurar e lançar filmes cult que nunca foram lançados, ou que apenas circularam em cópias de qualidade pobre”, explica Chris Innis, que se ocupa da parte de edição e produção do material. –”Queremos dar a obras que foram anteriormente classificadas como sendo de “qualidade B” um tratamento e uma pós-produção dignos de filme A”.

A empresa começou comprando os direitos de alguns clássicos de exploitation italianos. O relançamento americano de uma versão estendida do polêmico Cannibal holocaust, de Ruggero Deodato, que havia popularizado o subgênero canibal mundo afora, foi um sucesso. Em seguida, recupera tesouros trash como Pieces e I drink your blood ou ainda o enigmático An american hippie in Israel, até então perdido (ver quadro acima).

“Todo mundo na Grindhouse é fascinado por filmes raros e independentes”, continua a editora. “Sage Stallone é uma enciclopédia humana de exploitation, passa seus dias vendo e revendo seus filmes favoritos e os escolhendo para distribuição”.

Para atrair os adoradores do gênero, a companhia tenta criar o máximo de extras possíveis nos lançamentos em DVD, entrevistando atores “perdidos” e antigos membros de equipes espalhados pelo mundo.

“Para nós, esses filmes são tão importantes quanto os que ganharam o Oscar”, diz Chris, com a autoridade de quem acaba de receber uma estatueta pela montagem de Guerra ao terror. “De alguma forma, sentimos que estamos contribuindo para a história do cinema ao preservarmos os filmes que foram perdidos ou desprezados. São obras que merecem ser vistas pelas atuais e próximas gerações”.

(Texto e entrevistas: Bolívar Torres)

Advertisements

About bolivartorres

Rio de janeiro. Brasil.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: