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Entrevista com Brillante Mendoza

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Bolívar Torres, Jornal do Brasil

Pendurada na parede de seu escritório, o filipino Brillante Mendoza guarda um troféu que ele costuma valorizar tanto quanto sua Palma de Ouro, conquistada no ano passado pela direção do polêmico Kinatay.

É uma carta que recebeu de ninguém menos do que Quentin Tarantino. Perplexo com sua abordagem da violência neste filme, cuja descida aos submundos sangrentos de Manila resultou em um dos trabalhos mais sufocantes e perturbadores dos últimos tempos, o americano escreveu:

“Parabéns por seu difícil e complicado filme. Sua decisão de nunca dramatizar o assassinato, nunca ceder ao suspense…. foi corajosa, ousada e, para mim, representa todo o sentido de fazer o filme. Senti-me como uma testemunha ocular de um terrível assassinato. E acreditei em tudo que vi”.

O elogio de Tarantino reafirma o ideal de cinema de Mendoza, diretor independente que luta para se manter em atividade apesar dos difíceis meios de produção de seu país. Seus principais filmes, como Lola, Serbis e o próprio Kinatay, serão apresentados ao público brasileiro na mostra Descobrindo o cinema filipino, que começa na terça (29 de junho), no Centro Cultural Banco do Brasil, exibindo 33 filmes inéditos no circuito nacional. Acusado de explorar a violência e a pobreza dos centros urbanos terceiro-mundistas, Mendoza rebate os críticos: o conteúdo difícil, implacável e, não raro, indigesto de suas obras está lá para nos confrontar, sem moralismos ou julgamentos, com uma realidade que não pode ser ignorada.

– Por causa de toda a violência gráfica e do retrato da miséria de meus filmes, entendo que se fale em sadismo ou “pornografia da pobreza” – diz, em entrevista por telefone ao Caderno B. – As pessoas têm o direito de pensar o que quiserem, mas nunca pretendi fazer exploração da violência ou da pobreza.

Não encontro satisfação pessoal em mostrá-las. A verdade é que o público não está acostumado a ser confrontado a elas, em admitir que elas existem. Kinatay, por exemplo, é baseado na violência da vida real, no dia a dia do meu país. Não é deixando de mostrar coisas ruins que elas vão desaparecer.

Como bem argumentou Tarantino, o registro urgente e sem concessões da realidade que nos cerca é o principal motor dos filmes de Mendoza. Carregando uma pesadíssima câmera 35 mm nos ombros, o cineasta segue de perto seus personagens em todos os lugares, invade o interior das comunidades variadas, revelando o seu ambiente confuso, barulhento e, muitas vezes, perigoso. Subindo escadarias, entrando em vans ou perdendose entre ruas lotadas, o espectador transforma-se em uma testemunha impotente dos acontecimentos.

Em Lola (2009), seu último longa, é impossível não sentir arrepios ao acompanhar os personagens principais, frágeis vovozinhas que caminham de lá para cá pela cidade, enfrentando a chuva, o vento e a miséria. A primeira acabou de ter o neto assassinado, e busca condições para enterrá-lo dignamente; a segunda é a avó do assassino. Ambas, no entanto, sofrem as mesmas dificuldades.

Serbis atravessa os muros de um cinema pornográfico, usado por uma família para comandar serviços de prostituição.

– Para mim, é importante seguir estas pessoas, não apenas para compreendêlas como personagens, mas também como representantes de uma comunidade – explica o diretor. – Não tenho propósitos unicamente cinematográficos ao filmá-los: quero sentir o mesmo que eles sentem, entender como eles interagem com suas comunidades, como se relacionam com o ambiente e os rituais que os cercam.

Cada filme de Mendoza se torna um exercício de imersão; mas, apesar do ritmo acelerado de filmagem (Serbis foi realizado em 20 dias e Lola em 10), do uso de muitos atores não profissionais e do seu tom realista, quase documental, é incorreto pensálos como obras totalmente abertas ao acaso. Considerandose tanto jornalista como cineasta, Mendoza costuma preparar um trabalho de pesquisa minucioso antes de rodar. Embora deixe um lugar privilegiado à improvisação, o diretor coreografa os movimentos de todos os seus atores, interagindo os efeitos dramáticos com a realidade dos lugares que filma.

O trabalho com o som também tem um papel essencial no processo de imersão: Serbis absorve o constante burburinho do trânsito vindo do movimentado bairro onde o cinema pornô está localizado; Lola , por sua vez, tem intervenções de sons da natureza, como a chuva e o vento.

– Há quem pense que eu apenas chego em lugares onde a vida já existe e fico filmando ao acaso os figurantes. Mas a verdade é que eu sempre chego nas filmagens sabendo tudo que quero – assegura Mendoza. – Procuro, mesmo assim, dar liberdade aos atores, eles podem dizer as falas da maneira que quiserem. Isso faz com que fiquem mais comprometidos com a verdade.

Inconfundível, o estilo de Brillante Mendoza não permite concessões: é pegar ou largar. Ou o espectador vence as dificuldades impostas pelo tempo real e deixa-se guiar câmera fluida e vertiginosa, ou se entediará diante do mar de infelicidade, tristeza e obscenidade que se oferece aos seus olhos.

– Cinema, para mim, nunca foi entretenimento e sim uma arma poderosa para mudar as mentes – sentencia o diretor. – Nossa geração está sempre pedindo para ser entretida e encontra diversão em todos os lugares: shoppings, nos equipamentos eletrônicos etc. Mas, com os meus filmes, tenho a oportunidade de falar com pessoas reais, o que não é o tipo de entretenimento que os espectadores costumam procurar.

…E a Nouvelle Vague rachou

Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO – Um dos momentos centrais da Nouvelle Vague ocorre em maio de 1968, durante a edição do Festival de Cannes. Em solidariedade aos estudantes e operários que tomavam as ruas de Paris para protestar, os (então) amigos François Truffaut e Jean-Luc Godard, figuras-chaves do movimento, decidem encerrar o evento em meio a uma reunião acalorada com os demais cineastas e técnicos presentes. Embora as imagens de arquivo mostrem uma aparente sintonia, pequenas rachaduras podem ser vislumbradas nos gestos opostos dos dois diretores. Visivelmente alterado, Godard assume uma postura teatral, grita que não é momento de falar sobre cinema, mas sim de política (“Eu estou falando sobre solidariedade aos estudantes e operários e vocês me vêm com essa conversa de travelling e planos gerais!”), enquanto, no mesmo instante, um Truffaut muito mais contido parece responder ao colega com um sorriso discreto, vagamente irônico.

As imagens foram resgatadas pelo documentário Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, de Emmanuel Laurent, que estreia nesta sexta-feira no Rio, buscando as origens do racha súbito entre os parceiros, que nos primeiros anos de movimento tinham se apoiado mutuamente na carreira, com amizade e admiração. A partir dos eventos de maio 68, porém, ambos seguiram caminhos opostos: Godard deu uma guinada radical rumo à politização extrema de seus filmes, acusando Truffaut ( morto em 1984) de ter se vendido ao establishment e traído estética e filosoficamente o espírito do movimento.

– Truffaut, que teve uma infância e adolescência pobre, nunca entendeu a transformação súbita de Godard, que até então era um homem de direita, vindo de uma família burguesa – explica Emmanuel Laurent, em entrevista ao Caderno B. – Godard virou maoísta da noite para o dia, o que na época se chamava de mao-spontex. Por sua origem, Truffaut não fantasiava com as classes operárias, e via certa falsidade nas atitudes de Godard.

Seres de cinema

Apoiado numa pesquisa de Antoine de Baecque, ex-crítico da revista Cahiers du cinéma , Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague (versão esdrúxula do título original Deux de la vague, literalmente “Dois da onda”), desvia com cuidado dos aspectos mais sensacionalistas da disputa, preferindo usar as rixas entre os diretores para contextualizar os ideais da nouvelle vague, além de fazer um belo retrato de uma certa juventude cinéfila da época, que vivia a sétima arte com paixão intensa, transformando-se em “seres de cinema”.

Laurent e Baecque mostram como os cineastas novatos do movimento foram educados pelas sessões da Cinemathèque de Paris, onde viam e reviam, sem auxílio de legendas, clássicos estrangeiros. A prática levou ao que Henri Langlois (ex-diretor da Cinemathèque) definia como a “educação do olhar”: tentando entender os filmes através das imagens, deram mais valor à mise-en-scène do que ao roteiro e aos diálogos, indo na contramão ao “cinema de qualidade” que se produzia na França. Daí a defesa apaixonada que a Nouvelle Vague fazia do cinema como uma arte visual.

Além de Godard e Truffaut, toda a efervescência artística dos anos 60 e 70 ganha vida no documentário. Neste ponto, o ator Jean-Pierre Léaud, descoberto ainda adolescente por Truffaut no primeiro longa do cineasta, surge como o verdadeiro protagonista de Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague. Léaud, que começou a carreira no papel de Antoine Doinel, uma espécie de alter ego de Truffaut, acabará dividido entre este último e Godard. Os dois diretores disputarão seus serviços como se brigassem por um herdeiro do movimento.

– Léaud é o filho e a cara da Nouvelle Vague – sustenta Laurent. – Com Truffaut ele foi quase sempre o Doinel, ou seja, uma criança adulta. Mas com Godard ele pode crescer, fazer outras coisas. É engraçado que quando Godard o escolhe para protagonizar Masculin féminin ele o filma como Antoine Doinel. Talvez isso mostre um pouco como Godard sempre esteve indo na continuação de Truffaut, retomando coisas que ele fazia. Acossado foi feito a partir de um argumento de Truffaut e Uma mulher é uma mulher realizado logo depois de Jules e Jim, que também é sobre um triângulo amoroso… Isso não é um demérito para Godard, não o diminui artisticamente. Mas é um fato que aumenta ainda mais o interesse dramático na relação entre os dois.

O documentário foi, junto com uma recente biografia de Godard escrita pelo roteirista Antoine De Baecque, o primeiro a revelar a vida privada do cineasta franco-suíço. Fornecidas por sua família, fotos de sua infância mostram o futuro maoísta num ambiente burguês. Em uma entrevista para a revista Les inrockuptibles, o diretor manifestou seu descontentamento com o longa e com a biografia que DeBaecaque: “Incomoda-me que membros da minha família forneçam documentos. Isso não se faz”.

– Ele falou isso para a Les inrocks? Eu não sabia. Você pode me passar o link da entrevista depois? – surpreende-se Laurent. – Godard é um homem fechado, que ocultou todo o seu passado. É uma pessoa nervosa, que cria atritos com as pessoas e muda de ideia como se muda de camisa. De qualquer maneira, não esperávamos uma reação positiva dele. Admiro o cinema de Godard tanto quanto o de Truffaut. Ele me ensinou muitas coisas em termos de montagem, mas não costumo levar a sério as suas declarações.

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Alexandre Werneck: Vcs que gostam de listas… Central do Brasil é o 57o na lista da Empire de melhores “estrangeiros” da história do cinema.

Eu: ahaha. “estrangeiros” é ótimo

Alexandre Werneck: Ganha de Acossado, Persona e 8 1/2. filmes não falados em inglês

Eu: central do brasil > acossado é foda

Alexandre Werneck: central do brasil > em geral é foda. Mas não se preocupe, ele não ganha de Godzila, do Honda

Eu: ahah

Alexandre Werneck: mas o mais legal eu não disse. Cidade de Deus é o 7o da lista.

Eu: em homenagem ao seu amigo meirelles, saramago deve estar dando pulinhos de alegria no céu

Alexandre Werneck: saramago não daria pulinhos nem vivo. mas ele agora vai psicografar um livro pro meirelles filmes. no livro novo, as pessoas um dia acordam e vão todas ao cinema ver um mesmo filme no mundo todo. e não conseguem mais sair do cinema.

Eu: ahahah, será um remake comunista de bastardos inglorios

Gasparetto e os Gasparzinhos

Aos 82 anos, a escritora espiritualista Zíbia avisa aos seus milhões de seguidores: vai diminuir a produção de livros. No novo, que sai este mês, são os leitores que escrevem

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Com 82 anos completados na última terça-feira, a médium Zíbia Gasparetto decidiu: vai diminuir o ritmo de sua produção. Desde a década de 50, diferentes seres desencarnados começaram a lhe soprar do além narrativas que misturam suspense, romance açucarado e mensagens de auto-ajuda. Um dom sobrenatural que já rendeu 31 livros psicografados e mais de 9 milhões de exemplares vendidos. Mas, em 2006, a entidade Lucius, que teria sido membro do parlamento inglês numa vida passada e que é hoje “responsável” pela maioria dos best-sellers de Zíbia, assobiou no ouvido dela: “Este ano, você escreverá menos”. Zíbia obedeceu seu guia e publicou “apenas” dois livros desde o final de 2007. O mais recente é Eles continuam entre nós, uma rara obra não-psicografada, que chega às livrarias ainda este mês. Trata-se, nas palavras do release enviado pela editora, de “uma coletânea de relatos feitos por leitores sobre experiências que só podem ser explicadas pela intervenção de seres de outras dimensões, sem qualquer lógica materialista”.

– A mediunidade é uma coisa de ciência, mas também é delicada – explica Zíbia. – As pessoas têm medo de lidar com ela. Muita gente tem aptidão para isso, mas não estudou. O que é um problema, porque a mediunidade mexe com muitas energias e é um mundo vasto, que invade a áurea.

Zíbia diz que o livro pode desmistificar as fantasias em torno da paranormalidade – que para ela, não tem nada de “para”.

– Há muitos estudos comprovados a respeito desses fenômenos. Tem essa tal de física quântica, que mostra que o corpo pode sobreviver à parte física. Há muitos autores e livros que comprovam isso – afirma Zíbia.

Quais, Zíbia?

– Hum, pois é, assim, de cabeça, não sei dizer.

Ao longo dos anos, os espíritos foram bom conselheiros para a família Gasparetto. Além do rentável material literário, Zíbia ganha orientações para os negócios. É graças ao bom faro das entidades comunicacionais que os Gasparetto abriram a empresa Vida & Consciência, uma editora especializada em livros cujo principal objetivo é ajudar as pessoas a superar seus tormentos. Com o tempo, no entanto, Lucius já não se comunica tanto com Zíbia, dando mais liberdade para a empresária agir.

– No começo, ele estava comigo em todos os lugares – lembra. – Era no trabalho, no trânsito, na cozinha… Me orientava até na hora de atravessar a rua! Mas, hoje, ele já não me ciceroneia tanto quanto antigamente.

Não é apenas na sabedoria de Lucius que bebe o trabalho literário e empresarial de Zíbia. Outros autores ditam obras para a médium. Entre eles, há nomes conhecidos da cultura brasileira, como Gilberto Freyre. A única diferença é que, pela pena incansável de Zíbia (as entidades ditam horas a fio, sem descanso), o pensador que definiu o conceito de democracia racial troca a antropologia por histórias sentimentalóides no melhor estilo roman rose.

Não dá para negar: devido aos seus dons psicográficos, o grande público brasileiro pôde enfim conhecer alguns autores canônicos da nossa nação. Com um estilo menos erudito, vá lá. E talvez com idéias um pouco menos profundas.

– Ah, o Gilberto… – lembra Zíbia. – Esse só aparece esporadicamente. Mas dita boas histórias. Do que ele escreveu quando vivo, só conheço aquele livro, o Casagrande e Senzala.

“Dona Zíbia”, como é chamada pelos mais de 200 funcionários de sua editora, não sabe explicar por que os autores clássicos mudam tanto seu estilo depois de mortos. Aliás, a empresária não fala muito sobre Freyre. Nem do romancista Graciliano Ramos, outra entidade ilustre que lhe dita alguns contos. Prefere citar José Silveira Sampaio, um espírito vivo, alegre e otimista, que lhe foi apresentado por Lucius. Em vida, Sampaio foi um autor, ator e diretor teatral de sucesso e virou um dos seres desencarnados preferidos da médium.

– Quando ele vem me visitar é sempre uma festa! – exulta. – Ele me dá conselhos. Um dia ouvi claramente: “Hoje você não come sobremesa. Só frutas”. E eu, claro, obedeci.

Mais do que dicas culinárias, Sampaio já ditou alguns livros, como o clássico O Mundo em que eu vivo, em que relata a vida em outras dimensões. Mas é o guru Lucius que emplaca os grandes sucessos da editora: seu Ninguém é de ninguém que ensina a superar os desacertos do ciúme, vendeu mais de 1 milhão de exemplares desde seu lançamento, em 2000. O mais recente triunfo da entidade é o livro Onde está Teresa?, espécie de thriller espírita que vendeu 200 mil cópias em menos de seis meses.

Ao ser perguntado sobre o significado oculto de seus livros, o escritor Ernest Hemingway costumava brincar: “Quando quero passar uma mensagem, mando um telegrama”, dizia. Zíbia Gasparetto, por sua vez, leva mais a sério essa função. Todos seus livros – e os de sua editora – trazem mensagens de aprendizado a seus leitores. Quando é preciso voltar (2001) avisa que fugir dos problemas apenas transfere o momento de enfrentá-los. Já A Verdade de cada um (1996) mostra o quanto se erra quando se pretende julgar os outros. Em Tudo valeu a pena (1993), Lucius ensina que, quando se vencem os desafios, descobre-se que tudo aconteceu para o melhor.

– O mundo está conturbado e as pessoas estão sem rumo – alerta Zíbia. – Quero distribuir para os outros a minha experiência. As pessoas precisam acordar para melhorar sua maneira de viver. Enfim, essa é minha experiência, e ela é intransponível. E aí, consegui tirar as suas dúvidas?

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Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO – “Cidadão Kane também me fez biógrafo”, admite o francês Pierre Assouline, na introdução de seu Rosebud, que reúne fragmentos das vidas de nove personalidades importantes do século 20. O escritor e crítico, um dos principais biógrafos de seu país, busca, como o filme de Orson Welles, a zona de sombra de seus personagens – o detalhe que passou despercebido em suas trajetórias, e que pode esconder alguma face secreta de suas personalidades. No longa, a ideia se materializa no trenó botão de rosa do magnata Charles Foster Kane. Símbolo da inocência perdida em meio ao selvagem mundo capitalista (entre outras interpretações), o objeto insignificante era uma chave para a compreensão da vida de Kane, mas acabou lançado às chamas sem que seus “biógrafos” lhe dessem a devida atenção. Ao analisar a vida de personalidades tão complexas quanto o personagem de Welles – Rudyard Kipling, Jean Moulin, Pablo Picasso ou Henri Cartier-Bresson – Assouline vai além da história oficial e daquilo que ele descreve como “o cansaço das provas”. Muito além dos documentos, dos arquivos e das fontes oficiais, tenta encontrar, no rosebud de cada um, o equilíbrio entre a veracidade histórica e a sua devida parte de mistério.

– É justamente este equilíbrio incerto que eu nunca canso de procurar – explica Assouline, em entrevista ao Jornal do Brasil. – Faço isso pelo menos desde Lutetia (livro de 2005, não lançado no Brasil, que retrata a Segunda Guerra) num registro ainda mais híbrido, que é o do romance saído de uma documentação rigorosa, mas com espaço para a forma literária.

Uma busca que, revela o autor, tem mais de 30 anos. Mas, do ponto de vista de um biógrafo, o que é exatamente um rosebud? “Uma vestimenta, um objeto, um gesto”, descreve Assouline. “Uma obra de arte eventualmente. Ou uma madalena. Talvez um traço ou um sinal. Às vezes mesmo uma simples página de um livro. Ou uma palavra.”

Cada capítulo é dedicado a um autor e alguns de seus possíveis “botões de rosa”: “A ‘duquesa’ de Kipling”, “Sob o cachecol de Jean Moulin”, “Nos bolsos de Bonnard”, etc. Engana-se, porém, quem teme ver a ideia de Welles ser transformada num mero fetiche literário. Havia, de fato, um risco enorme do processo se tornar esquemático – um simples dispositivo que se atira sobre os grandes feitos de uma personalidade para depois jogar na cara do leitor o “grande segredo” que passara batido. Mas a verdade é que o biógrafo foge com habilidade de qualquer formulismo banal.

Logo no primeiro capítulo, dedicado ao poeta inglês Rudyard Kipling, fica claro que o projeto de Assouline é muito mais ambicioso: não se trata de encontrar falhas ou revelações em seus personagens, nem reduzir suas trajetórias a uma lógica ou um bloco explicativo uniforme, e sim de fazer um inventário dos próprios limites e possibilidades de uma biografia. Espécie de metabiografia, Rosebud é atravessado pelos dilemas e reflexões de um obcecado pelo ofício: o que é contar uma vida? Qual a melhor maneira de abordar uma trajetória? Qual é a parte de verdade de cada vida e qual é a parte “construída”, ao longo dos anos, pelos biógrafos?

“Todos estes destaques de biografias são sombras da verdades”, escreve Assouline. “Isolá-los para colocá-los um a um na lâmina fosca do microscópio é como inventá-los. Eles não têm existência histórica senão pela importância que se lhes concede. Extravagante talvez, resolutamente arbitrário e de tal modo subjetivo. No fundo, importa que o essencial de uma vida consista no inefável”.

Autor de livros sobre Hergé e Simenon, entre outros, o escritor diz que, depois de escrever 10 biografias, sentira necessidade de fazer o balanço sobre sua atividade.

– Estava insatisfeito com a acomodação que o gênero estava vivendo na França – revela Assouline, que prepara nesse momento um livro sobre Jó. – Aliás, ainda estou. Rosebud é, no fundo, uma reflexão sobre a profissão, seus paradoxos e ambiguidades. Mas como disse Cartier-Bresson, é preciso abordar as coisas de forma enviesada, não frontalmente. Assim as vemos melhor. É o que faço: parto desses fragmentos de vidas para chegar ao cerne da questão.

No capítulo A bengala-banco de Monsieur Henri, Assouline acompanha um amigo, o fotógrafo Henri Cartier-Bresson, a quem já havia dedicado uma biografia (Cartier-Bresson: o olhar do século, publicado no Brasil pela L&PM). Neste reencontro, o fotógrafo passeia com o autor por um museu em Budapeste – e o apresenta a um princípio fundamental: o de fazer fotografias mentais. Essas imagens abstratas, que permanecem apenas na memória de quem as tira, são um pouco como a parte de mistério que cabe a todos os personagens: o segredo que ninguém pode lhes roubar, nem mesmo o mais astuto dos biógrafos.

Aos poucos, percebemos que o longo devaneio dos dois homens serve muito mais para buscar o rosebud do próprio autor do que o de Cartier-Bresson. Em uma estrutura conceitual, capítulo a capítulo, o livro avança criando uma unidade romanesca, que põe de lado os fragmentos biográficos do projeto inicial para revelar enfim o que realmente é: a autobiografia de um biógrafo.

– Existe, de fato, uma ligação secreta que une todas estas histórias – confessa Assouline. – As diferentes histórias, que também poderiam ser contos, eu as acumulei por anos. O dia em que um princípio formal se impôs, me lancei na tarefa, sabendo que ela deveria ser flexível.

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Elle ne venait pas à une heure régulière. Vous la trouviez assise là très tôt le matin. Ou alors, elle apparaissait vers minuit et restait jusqu’au moment de la fermeture. C’était le café qui fermait le plus tard dans le quartier avec Le Bouquet et La Pergola, et celui dont la clientèle était la plus étrange. Je me demande, avec le temps, si ce n’était pas sa seule présence qui donnait à ce lieu et à ces gens leur étrangeté, comme si elle les avait imprégnés tous de son parfum.

Supposons que l’on vous ait transporté là les yeux bandés, que l’on vous ait installé à une table, enlevé le bandeau et laissé quelques minutes pour répondre à la question: Dans quel quartier de Paris êtes-vous?

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I died for beauty but was scarce
Adjusted in the tomb,
When one who died for truth was lain
In an adjoining room.

He questioned softly why I failed?
“For beauty,” I replied.
“And I for truth,–the two are one;
We brethren are,” he said.

And so, as kinsmen met a night,
We talked between the rooms,
Until the moss had reached our lips,
And covered up our names.

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Blow, blow, thou winter wind,
Thou art not so unkind
As man’s ingratitude;
Thy tooth is not so keen,
Because thou art not seen,
Although thy breath be rude,
Heigh-ho! sing, heigh-ho! unto the green holly:
Most friendship is feigning, most loving mere folly.
Then heigh-ho! the holly!
This life is most jolly.

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L’étoile a pleuré rose au cœur de tes oreilles,
L’infini roulé blanc de ta nuque à tes reins
La mer a perlé rousse à tes mammes vermeilles
Et l’Homme saigné noir à ton flanc souverain.

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A long, long sleep, a famous sleep
That makes no show for dawn
By strech of limb or stir of lid, –
An independent one.

Was ever idleness like this?
Within a hut of stone
To bask the centuries away
Nor once look up for noon?

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