
Bolívar Torres, Jornal do Brasil
Pendurada na parede de seu escritório, o filipino Brillante Mendoza guarda um troféu que ele costuma valorizar tanto quanto sua Palma de Ouro, conquistada no ano passado pela direção do polêmico Kinatay.
É uma carta que recebeu de ninguém menos do que Quentin Tarantino. Perplexo com sua abordagem da violência neste filme, cuja descida aos submundos sangrentos de Manila resultou em um dos trabalhos mais sufocantes e perturbadores dos últimos tempos, o americano escreveu:
“Parabéns por seu difícil e complicado filme. Sua decisão de nunca dramatizar o assassinato, nunca ceder ao suspense…. foi corajosa, ousada e, para mim, representa todo o sentido de fazer o filme. Senti-me como uma testemunha ocular de um terrível assassinato. E acreditei em tudo que vi”.
O elogio de Tarantino reafirma o ideal de cinema de Mendoza, diretor independente que luta para se manter em atividade apesar dos difíceis meios de produção de seu país. Seus principais filmes, como Lola, Serbis e o próprio Kinatay, serão apresentados ao público brasileiro na mostra Descobrindo o cinema filipino, que começa na terça (29 de junho), no Centro Cultural Banco do Brasil, exibindo 33 filmes inéditos no circuito nacional. Acusado de explorar a violência e a pobreza dos centros urbanos terceiro-mundistas, Mendoza rebate os críticos: o conteúdo difícil, implacável e, não raro, indigesto de suas obras está lá para nos confrontar, sem moralismos ou julgamentos, com uma realidade que não pode ser ignorada.
– Por causa de toda a violência gráfica e do retrato da miséria de meus filmes, entendo que se fale em sadismo ou “pornografia da pobreza” – diz, em entrevista por telefone ao Caderno B. – As pessoas têm o direito de pensar o que quiserem, mas nunca pretendi fazer exploração da violência ou da pobreza.
Não encontro satisfação pessoal em mostrá-las. A verdade é que o público não está acostumado a ser confrontado a elas, em admitir que elas existem. Kinatay, por exemplo, é baseado na violência da vida real, no dia a dia do meu país. Não é deixando de mostrar coisas ruins que elas vão desaparecer.
Como bem argumentou Tarantino, o registro urgente e sem concessões da realidade que nos cerca é o principal motor dos filmes de Mendoza. Carregando uma pesadíssima câmera 35 mm nos ombros, o cineasta segue de perto seus personagens em todos os lugares, invade o interior das comunidades variadas, revelando o seu ambiente confuso, barulhento e, muitas vezes, perigoso. Subindo escadarias, entrando em vans ou perdendose entre ruas lotadas, o espectador transforma-se em uma testemunha impotente dos acontecimentos.
Em Lola (2009), seu último longa, é impossível não sentir arrepios ao acompanhar os personagens principais, frágeis vovozinhas que caminham de lá para cá pela cidade, enfrentando a chuva, o vento e a miséria. A primeira acabou de ter o neto assassinado, e busca condições para enterrá-lo dignamente; a segunda é a avó do assassino. Ambas, no entanto, sofrem as mesmas dificuldades.
Já Serbis atravessa os muros de um cinema pornográfico, usado por uma família para comandar serviços de prostituição.
– Para mim, é importante seguir estas pessoas, não apenas para compreendêlas como personagens, mas também como representantes de uma comunidade – explica o diretor. – Não tenho propósitos unicamente cinematográficos ao filmá-los: quero sentir o mesmo que eles sentem, entender como eles interagem com suas comunidades, como se relacionam com o ambiente e os rituais que os cercam.
Cada filme de Mendoza se torna um exercício de imersão; mas, apesar do ritmo acelerado de filmagem (Serbis foi realizado em 20 dias e Lola em 10), do uso de muitos atores não profissionais e do seu tom realista, quase documental, é incorreto pensálos como obras totalmente abertas ao acaso. Considerandose tanto jornalista como cineasta, Mendoza costuma preparar um trabalho de pesquisa minucioso antes de rodar. Embora deixe um lugar privilegiado à improvisação, o diretor coreografa os movimentos de todos os seus atores, interagindo os efeitos dramáticos com a realidade dos lugares que filma.
O trabalho com o som também tem um papel essencial no processo de imersão: Serbis absorve o constante burburinho do trânsito vindo do movimentado bairro onde o cinema pornô está localizado; Lola , por sua vez, tem intervenções de sons da natureza, como a chuva e o vento.
– Há quem pense que eu apenas chego em lugares onde a vida já existe e fico filmando ao acaso os figurantes. Mas a verdade é que eu sempre chego nas filmagens sabendo tudo que quero – assegura Mendoza. – Procuro, mesmo assim, dar liberdade aos atores, eles podem dizer as falas da maneira que quiserem. Isso faz com que fiquem mais comprometidos com a verdade.
Inconfundível, o estilo de Brillante Mendoza não permite concessões: é pegar ou largar. Ou o espectador vence as dificuldades impostas pelo tempo real e deixa-se guiar câmera fluida e vertiginosa, ou se entediará diante do mar de infelicidade, tristeza e obscenidade que se oferece aos seus olhos.
– Cinema, para mim, nunca foi entretenimento e sim uma arma poderosa para mudar as mentes – sentencia o diretor. – Nossa geração está sempre pedindo para ser entretida e encontra diversão em todos os lugares: shoppings, nos equipamentos eletrônicos etc. Mas, com os meus filmes, tenho a oportunidade de falar com pessoas reais, o que não é o tipo de entretenimento que os espectadores costumam procurar.






